18-07-2008
Compaixão + Sabedoria
Deixo-te duas pequenas histórias para sentir e reflectir:
O Mestre e o Escorpião

Numa bela tarde de Outono, um mestre oriental passeava à beira de um riacho, quando viu um escorpião que se debatia violentamente com as àguas, quase a afogar-se. O mestre decidiu tirá-lo da água. Ajoelhou-se na margem e esticou a sua mão, mas quando estava prestes a agarrá-lo, o escorpião levantou a cauda e picou-o.
Pela reação de dor, o mestre soltou-o bruscamente, e o animal caiu novamente na água, contorcendo-se ainda com mais fúria.
O mestre tentou novamente tirá-lo, desta vez com mais cuidado, mas o animal, de rápidos reflexos mesmo dentro de água, atingiu-o novamente.
Um camponês, que morava ali perto e tinha oservado a cena desde o início, aproximou-se do mestre e disse:
Caro mestre, desculpe que lhe diga, mas você é teimoso! Não entende que todas as vezes que tentar tirá-lo da água ele irá tentar picá-lo?
O mestre respondeu-lhe:
Meu caro jovem, de facto tens razão! A natureza do escorpião é picar, mas isso não vai mudar a minha própria natureza, que é ajudar!
Então o mestre, com a ajuda de uma folha larga, tirou finalmente o escorpião da água e salvou-lhe a vida.
O camponês continuava ali em silêncio, pasmado com a situação. Então o mestre retorquiu-lhe:
Obrigado pela tua ajuda meu rapaz! De facto isto à mão, não ia lá! - gracejou - nunca mudes a tua natureza se alguém te magoar ou te fizer mal; certifica-te apenas que tomas as devidas precauções!
E com estas palavras retirou-se, cantarolando baixinho.
O Camponês e a Cobra

Numa fria tarde de Outono, um camponês encontrou uma cobra em estado muribundo, no seu campo de arroz. Vendo o sofrimento da cobra, ele encheu-se de compaixão, apanhou-a com cuidado e levou-a para casa.
Deu-lhe então, leite morno e envolveu-a num cobertor macio. Amorosamente colocou-a ao seu lado na cama e adormeceu feliz. Pela manhã, o camponês estava morto.
Passados alguns dias, já no plano espiritual enquanto Alma, o camponês volta a rever este episódio na presença do seu Guia e apercebe-se que, embora tivesse sido dotado de uma grande compaixão, faltou-lhe a sabedoria necessária para agir de forma coerente com o perigo, aparentemente muribundo, mas real.
E falaram longas horas sobre as várias formas de abordar esta e outras situações mais complexas e subtis, que o Guia - sabia e amorosamente - lhe ia sugerindo para analisar e resolver. No final da conversa, o jovem camponês, satisfeito e feliz com os seus progressos, disse ao Guia:
Meu Caro, quando voltar para a Terra vou conseguir fazer muito melhor! E nunca mais me vou esquecer que Sabedoria e Compaixão devem andar sempre juntas!!
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17-07-2008
O caminho da sinceridade interna

Começo com esta simples mas profunda parábola:
Conta-se que por volta do ano 250 A.C, na China antiga, um príncipe da região norte do país estava nas vésperas de ser coroado imperador mas, de acordo com a lei, deveria casar-se primeiro. Sabendo disso, ele resolveu fazer um comunicado público, a todas as donzelas solteiras e disponíveis.
No dia seguinte, o príncipe anunciou que receberia, numa celebração especial, todas as pretendentes e lançaria um desafio. Uma velha senhora, serva do palácio há muitos anos, ouvindo os comentários sobre os preparativos, sentiu uma leve tristeza, pois sabia que a sua jovem filha nutria um sentimento de profundo amor pelo príncipe.
Ao chegar a casa, contou à jovem o que se estava a passar, e espantou-se ao saber que ela pretendia ir à celebração. Indagou incrédula:
- Minha filha, o que vais lá fazer? Estarão presentes todas as mais belas e ricas moças da corte. Por favor, tira essa ideia insensata da cabeça... não tornes o teu sofrimento uma loucura.
E a filha respondeu:
- Não, querida mãe, não estou a sofrer e muito menos louca. Eu sei que nunca poderei ser a escolhida, mas é a minha oportunidade de ficar pelo menos alguns momentos perto do príncipe. Isso já me faz feliz.
À noite, a jovem chegou ao palácio. Estavam lá, de facto, todas as mais belas moças, com as mais belas roupas e jóias. Então, inicialmente, o príncipe anunciou o desafio:
- Darei a cada uma de vocês, uma semente. Aquela que, dentro de seis meses, me trouxer a mais bela flor, será escolhida como minha esposa e futura imperatriz da China.
A proposta do príncipe não fugiu às profundas tradições daquele povo, que valorizava muito a especialidade de "cultivar" algo, fossem costumes, amizades ou relacionamentos.
O tempo passou e a doce jovem, como não tinha muita habilidade nas artes da jardinagem, cuidava com muita paciência e ternura da sua semente, pois sabia que se a beleza da flor surgisse na mesma extensão do seu amor, ela não precisaria de se preocupar com o resultado.
Passaram-se três meses e nada surgiu. A jovem tudo tentara, usando de todos os métodos que conhecia, mas nada havia nascido. Dia após dia, ela percebia cada vez mais longe o seu sonho, mas cada vez mais profundo o seu amor. Por fim, os seis longos meses chegaram ao fim, e nada havia brotado. Consciente do seu esforço e dedicação, a moça comunicou à mãe que, independentemente das circunstâncias, retornaria ao palácio na data e hora combinadas, pois não pretendia nada além de mais alguns momentos na companhia do príncipe.
Na hora marcada, ela lá estava com seu vaso vazio, enquanto as outras raparigas se exibiam sorridentes e confiantes, cada uma com uma flor mais bela do que a outra, das mais variadas formas e cores. Ela estava admirada, nunca havia presenciado tão bela cena.
Finalmente, o esperado momento chegou, e o príncipe observou cada uma das pretendentes com muito cuidado e atenção. Após passar por todas, uma a uma, ele anunciou o resultado e indicou a nossa jovem como sua futura esposa. Houve grande espanto e clamor no salão. As pessoas presentes tiveram as mais inesperadas reacções. Ninguém percebeu porque é que ele fora escolher justamente aquela humilde rapariga, que nada tinha cultivado. Então, calmamente o príncipe esclareceu:
- Senhoras e Senhores, acalmem-se! Esta rapariga foi escolhida porque cultivou a flor que a tornou digna de se tornar uma imperatriz: a flor da honestidade, pois todas as sementes que lhes entreguei eram propositadamente estéreis.
A existir algum passaporte para a Ascensão do ser humano, será certamente a porta estreita da sinceridade interna.
O ser humano pode enganar-se ou iludir-se a si próprio, e porventura enganar os outros.
Agora, o Príncipe (EU Superior), que construiu a sua morada real no sítio mais fundo e especial do coração humano, jamais poderá ser ludibriado pelas nuvens da mentira, do equívoco, e da auto-ilusão.
Paulo Raposo
12:10 Escrito em »»»»»» REFLEXÕES ««««««« | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail